Desde o nascimento, o ser humano é inserido em um contexto relacional que serve como o primeiro molde para suas futuras interações sociais. As primeiras relações, geralmente com pais ou cuidadores, estabelecem as bases do que entendemos por vínculo, amor, confiança e segurança. Essas experiências iniciais, permeadas pelos valores, crenças e comportamentos de nossos ancestrais, tornam-se a lente através da qual vemos e interpretamos todas as nossas futuras relações.
Essas dinâmicas familiares, estendendo-se por gerações, moldam o tecido de nossa interação social e emocional de maneiras complexas e subliminares. Quando certos aspectos da experiência de nossos antepassados não são adequadamente articulados ou elaborados, eles podem criar padrões inconscientes que influenciam nossas reações e relacionamentos. A falta de elaboração dessas experiências passadas pode resultar em um ciclo repetitivo de comportamentos e atitudes que nos afastam de uma compreensão completa de nossas próprias emoções e de como nos relacionamos com os outros.
Essas experiências elaboradas ou não, nos são passadas através da transmissão psíquica que é o processo pelo qual traumas, segredos, valores e comportamentos são passados de uma geração para a outra.
Investigações da transgeracionalidade em psicanálise sugerem que os eventos vividos pelos nossos antepassados, especialmente aqueles que foram traumáticos ou significativos, deixam marcas psíquicas que podem atravessar gerações. Estas marcas são como impressões emocionais que, embora não vivenciadas diretamente pela geração subsequente, podem influenciar suas percepções, comportamentos e escolhas de vida. A transmissão ocorre através de narrativas familiares, expressões emocionais, e até mesmo através do silêncio e de segredos guardados, que carregam o peso de experiências não articuladas.
Por exemplo, a resiliência ou a vulnerabilidade aos traumas podem ser transmitidas, levando a padrões de comportamento e reações emocionais que parecem desproporcionais aos eventos atuais, mas que fazem sentido quando vistas no contexto das histórias familiares. Assim, um indivíduo pode experimentar ansiedade, medo ou outros sentimentos intensos que são, em parte, ecos das experiências não resolvidas de seus antepassados.
A conscientização e a elaboração dessas influências transgeracionais são fundamentais para a cura e para a mudança de padrões disfuncionais. O trabalho analítico que explora essas dinâmicas pode ajudar a desvendar e a compreender as raízes profundas de certos padrões emocionais e comportamentais, que ficam “encriptadas”, permitindo que as pessoas criem narrativas para suas vidas, livres das amarras do passado.
O conceito de cripta na psicanálise refere-se a um espaço psíquico oculto onde residem memórias, não elaboradas, não expressas ou indizíveis. Essas são partes da história pessoal ou familiar que, por não terem sido devidamente processadas ou verbalizadas, tornam-se como cápsulas do tempo emocional, encapsuladas e preservadas dentro do psiquismo individual ou coletivo. São eventos enterrados vivos, verdadeiros fantasmas que habitam as profundezas de nossa mente, influenciando nossas percepções e interações de maneiras ocultas e muitas vezes perturbadoras.
Ao considerar esses eventos como enterrados vivos ou verdadeiros fantasmas, reconhecemos o poder persistente e muitas vezes perturbador dessas experiências não resolvidas. Elas agem como sombras silenciosas, moldando comportamentos, escolhas e reações emocionais de formas que podem permanecer incompreendidas até serem conscientemente abordadas e trabalhadas.
O trabalho de enfrentar e integrar o conteúdo da cripta é essencial para a saúde psíquica.
Na terapia, especialmente na abordagem psicanalítica, o trabalho com a cripta envolve a exploração cuidadosa dessas memórias e traumas ocultos, oferecendo um espaço seguro para a expressão e elaboração das dores não verbalizadas. Esse processo terapêutico ajuda a desenterrar e a confrontar os “fantasmas,” permitindo que a pessoa reinterprete sua história e construa um novo sentido para sua vida, livre dos fardos não reconhecidos do passado, abrindo caminho para um futuro emocionalmente mais equilibrado e psicologicamente mais saudável inclusive para as próximas gerações da família.